Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

"O optimismo é o perfume da vida " ...

(se) ... então é um verdadeiro desperdício que não use perfume ...




il giardino degli aranci

Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

...meses mais tarde...




Ad adiendum verbum*




...e começo com a saudade.
Voltei ao Porto pelo Natal e fui encontrar uma cidade nova, revista com outros olhos, aqueles saturados desta capital italiana feia, fria, suja e porca. (Continuo a perguntar-me se não se terão enganado quando chamaram barbaros àqueles que estavam do lado de fora!)
Não esqueço a comoção da chegada, ainda com um pé na escada do aviao, enquanto o por-do-sol reconquistava o devido lugar no catalogo das coisas memoravelmente admiraveis.
Uma comoção verdadeira, com lugar na primeira fila.

Do Porto estranhei nunca ter reparado como é uma cidade impecavelmente limpa, e quem a acha escura e soturna nunca pisou os lugubres passeios romanos que num qualquer dia de chuva se transformam em verdadeiros pantanos. Um recreio para os salta-pocinhas!

Do Porto estranhei tambem a nova face da baixa, estava tudo acabado durante os cinco meses de ausencia, so faltavam os historicos electricos em marcha! ( e ainda nos queixamos do eterno estaleiro...)

Consegui reunir os amigos logo à chegada numa jantarada ansiosamente preparada antes da viagem, a jantarada dos emigrantes, como alguem a chamou. Se bem que havia uma facçao a quem o titulo se opoe.
A verdade é que jà perdi a pachorra para estes "ajuntamentos" tipo Liceu, ou de "escolinha", onde acaba por existir quase exclusivamente espaço para trivialidades.
Esses, os jantares-justificaçao-que-somos-todos-bons-rapazes, sao (eram!) uma especie de desculpa para nos sentirmos ocupados e dinamicos (ah, e fazer rolar uns "chaimites"), mas rendo-me à evidencia que sao bem mais interessantes quando acontecem por mero acaso! ( sim, o mesmo se aplica aos canhoes!)
Acho que o conhecido adagio: "so ca faz falta quem ca està" é o epítome da mocidade-que-jà-era. Mer** para quem insiste sempre em sublinhà-lo, porque hà sempre alguem que faz falta!

Aparte as consideraçoes dispersas, foi optimo o passeio improvisado por um Porto que nao se ve todos os dias. O jantar-sem-hora-marcada, versao 1.0, foi uma boa experiencia, a ver se o proximo corre assim tao bem!

Sábado, 8 de Dezembro de 2007

Tira a mão do queixo...


credits: Carlos Lobão 2007


Sabado, 10 da manhã.

Acordo com o rufar de tambores e duas cornetas que lá fora agitam o ar com as muito usadas melodias natalicias.

Abro a janela. São cinco pais natais numa improvisada fanfarra-despertador. Ao fundo da rua, em vez do habitual caos automobilistico há uma enorme feira. Estou em Roma, mas é como se estivesse na provinciana Meda.

Preparo um café na minha Bialetti tamanho individual, e automaticamente relembro o conhecido discuro de Tyler Durden a bordo de um aviao... que ele faz a si próprio.
Enquanto espero pelo resultado da experiência fisico-quimica da água-calor-café, acendo um cigarro, e repenso os últimos acontecimentos. O Scirocco, esse vento quente africano que esporadicamente empurra o calor do Sahara para esta peninsula maldita, parece ter trazido com ele uma loucura ancestral dos povos africanos, na raiz de todos os tempos e mitos...

No Office foram anunciadas as novas remodelações, mas não da mobília (excepção feita a uma das casas-de-banho) mas de pessoal.
Sendo o recem-chegado, permaneço atónito com a noticia dos despedimentos de dois dos click-and-draggers mais antigos no escritório, enquanto olho nos olhos o patrão, que, apertando a sua mão nos meus ombros, me põe ao corrente do mesmo.

"Logo agora que o pessoal estava a criar uma dinamica de trabalho!", penso.
Talvez o problema fosse mesmo esse, o "ajuntamento" criativo foi subitamente sancionado pela mesma mão castradora que te dá o pão, antes que se rebelasse.

Eu vou-me entretendo com o projecto que tenho em mãos, a ampliação de um hotel, que é meu de raiz, e agarro a minha sanidade laboral (ou escondo-a) nas visitas imaginarias que faço ao lugar-a-ser, enquanto projecto (sim, é um verbo) nas três dimensões.
"Uma vez convencido o cliente, a responsabilidade é tua daqui até ao estaleiro", são as palavras do arquitecto sénior que me segue despreocupadamente, que andam ainda às cabeçadas dentro da minha própria cabeça, à espera de um catálogo onde cair.
Mas a sanidade, tal como a amizade, é apenas um estado temporário da alma...

O café está pronto. Sirvo-o e acendo mais um cigarro.

"Mas a sanidade, tal como a amizade, é apenas um estado temporário da alma..."
Talvez. Talvez o seja deveras. Em estocadas. Umas curtas e outras longas, que te ludibriam com uma sensação de infinitude. Mas tudo muda, tudo acaba, tudo morre.
E se as arvores o fazem quase sempre de pé, porque não os homens também?

Sábado, 6 de Outubro de 2007

Desabafos, Interludios e Consideraçoes breves sobre Cidadania e Barbaridade

Um dia destes, entre as interminaveis horas do trabalho forçado para acabar o concurso, assisti, às portas do Castel Sant'angelo, ao por-do-sol, a uma liçao de Historia ao vivo, digna de transmissao televisiva...

O tema era aquele, o da cidadania, que como o brilhante orador precisou vezes sem conta, è um conceito grego, mas espalhado por mao de Roma e força Latina.

Porque os Latinos eram uns tipos tramados. Viviam ali na margem sul do Tevere, donos das altezas entre colinas, andavam sempre às cabeçadas com os Etruscos, do outro lado do rio, e roubavam as mulheres aos probres Sabinos, que aquelas Latinas muito cedo perceberam que os maridos estavam mais interessados em brincar à guerra dos mundos com os amigos transteverianos, e assentaram os panos longe de Roma.
Ora assim é bem mais facil perceber como um homem possa degolar o irmao por ter ultrapassado uma linha imaginaria, talvez tivesse trocado o prazer de chapinhar na agua ensanguentada e fazer sibilar a espada, para se ir enroscar com a sua torrida latina recolhida nos verdes prados mais a este, mas isto sao tudo consideraçoes levianas....
O ponto é que da ferocidade animalesca destes homens nao resta duvida, e 400 anos depois tinham difundido a sua lingua e a sua força por um territorio cada vez maior..
E a lingua é o factor chave seja da ideia de cidadania seja da identidade.
O grego era ainda a lingua do refinamento literario, mas o latim era a palavra de instruçao belica.
As tribos e os povos que falavam de outro modo, eram os barbaros, porque falavam de um modo ininteligivel. Barbaro é um conceito de separaçao linguistica, e obviamente cultural, mas tem uma origem isolada. Barbaro era todo o mundo fora de Roma.
E os barbaros, passo a passo, enquanto Roma aumentava de territorio e de homens, foram aprendendo a lingua, porque progressivamente o exercito aumentava, e a lingua comandava-os na cidadania.
Ser cidadao, àquele tempo, era ter direitos e previlegios sobre um territorio bem delimitado mas sempre em expansao, era estar dentro e ser de dentro de Roma, ser Romano. Era um direito à nascença de uns, uma separaçao de raiz cultural de tantos.

A Europa de hoje lutarà ainda com esta pertença, mas existe um episodio marcante na historia, o edito de Caracalla (212 da era de cristo), que decreta que a todos os que habitavam dentro do territorio imperial fosse concedido o titulo de cidadao. Os barbaros afastavam-se, politicamente, cada vez mais do centro da civilidade. E a identidade do cidadao começava a estratificar-se e a perder o centro originario.
Que a raiz cultural do sul nos prove que da cultura helenistica que à força da espada e da lingua latina foi sendo espalhada restam sinais obvios e inequivocos, é constataçao inequivoca, basta lembrar o culto da imagem do corpo, considerado um marco exclusivo dos nossos tempos.
Que a raiz cultural do norte "barbaro", sempre "de fora" da civilidade me cheguem ainda hoje sinais contraditorios, é outra.
Porque descobrir que um conceito como "shadenfreude" nao exista nas linguas latinas, é algo que me deixa deveras confuso.

A civilidade serà cinica porque se esconde de si propria e a barbaridade porque denuncia os seus proprios podres?...

Quinta-feira, 4 de Outubro de 2007

...



"Levanta uma pedra do chao, e perceberás que por debaixo encontraras sempre sombra."

Terça-feira, 11 de Setembro de 2007

The office

Tenho andado algo perdido entre as horas acumuladas do trabalho, ou a fazer de conta que se trabalha, a menos que se entenda essa triste fazenda - o trabalho- como dar ininterruptamente corda à lingua.

Entrei para o office à pouco mais de duas semanas para engrossar a mão-de-obra-operativa que se dedica a um grande concurso para a nova sede central do municipio de Roma, a entregar no proximo 8 de Outubro, mais pormenores não adianto que a etica profisional sempre me obriga a algum sigilo.

Para começar, chamo-lhe office porque desde o inicio ficou bem claro que a estrutura era aquela da mediação entre uma serie de cabecinhas-pensadoras e a malta-do-clica-roda-e-arrasta, bem entendido que a dita mediaçao era feita por um nucleo duro de gente com interesses algo afastados da tematica propriamente dita arquitectonica, com os seus tentaculos politicos bem fincados em territorios inclinados à urbanistica e à especulaçao.


Pois bem, quando se pensa a um "office", decerto nos vem em mente ideias chave ( será melhor key concepts, ou ideias chavão?) como client specific , project management, risk management, e outra monstruosidades obtusas..., que te deixam a pensar, ou pelo menos a mim deixam, em alta produtividade, maxima organizaçao de recursos, ...

Ora bem, pelo andar da carruagem, e estando a pouco mais de duas semanas da entrega de tal colossal projecto, pergunto-me que é feito da organização? Aquela mais basica, que seria respeitar um cronoprograma, se pelo menos tivesse sido feito...
..mas isto sao tudo coisas que aqui no pais do "depois se decide" nem sequer sao tidas em conta. "deixa andar", repito a mim proprio continuamente, e tal como vai sendo adiada a intençao de deixar os cigarros, este projecto continua entalado no ventre poligamico que faz de conta que o concebe..., e o filho nascerá orfão mesmo que sobreviva à cesariana...

Sábado, 1 de Setembro de 2007

Tibur Apt




"Mais se estuda a Arte e menos interessa a Natureza. Aquilo que a arte efctivamente nos revela é a falta de desenho na Natureza, a suas estranhas asperezas, a sua extraordinaria monotonia, o seu absoluto imcompleto. A Natureza está cheia de boas intenções, é verdade, mas como disse uma vez Aristoteles, nunca as realiza!"(1)






(1) Oscar Wilde A decadencia da mentira

Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007

Desabafos, interlúdios e considerações breves sobre espaço público ...

(se há tipos prácticos são os italianos - que sobre isso não haja a mais pequena duvida-, mas no que toca ao campeonato do verdadeiro desenrascanço, cuja medalha de ouro teimam obstinadamente em oferecer-nos, o campeão em titulo chama-se tambem Itália)



Do ponto de vista cultural, sem dúvida que o peso da história é aqui evidentemente sublinhado no curto espaço entre gerações, ou pelo menos será acertado dizer que esse dito fosso entre gerações encontra-se encurtado, num país desde sempre obrigado a conviver e reviver (com) as velhas rotinas, fomentando um respeito inevitavel para com a história, com um forte sentido de comunidade, por reflexo obrigatório a um territorio humano saturado de alertas antigos concorrentes numa “dolce vita“ marcada a ferro e fogo na ideia comum do Belpaese...
E quando digo comunidade não quero com isso sublinhar qualquer ideia politica moderna, futurista, ou vermelha ou de esquerda, antes um conceito político de raiz (lembre-se PolisTikón), um conceito inerente à administração da polis, ao mundo de Remo encerrado dentro do pomério, onde inevitavelmente havia tarefas a ser divididas. A titulo de exemplo lembro que não há muitos anos no nosso país, e porventura ainda hoje num Alentejo pequeno e rural com traços de comunidade ainda profundos, a fonte e o forno representam um esforço mútuo no que diz respeito ao cumprimento das necessidades básicas da vida quotidiana.
Pois bem, precisamente a fonte e o forno são sem sinal de dúvida dois simbolos desta vida antiga em comunidade, que fizeram esta viagem de mais de dois milénios e, sem o menor espanto, fazem ainda hoje parte da rotina diária em Roma. E o mesmo se pode dizer das termas de que falei outro dia, as de Saturnia...
Há em Itália, e é inquestionavelmente um exemplo, coisas essencias do foro público que estão à disposição da inteira comunidade.
O reverso da medalha vejo-o eu em tudo ao que o detalhe do espaço publico diz respeito. Mas já lá vamos.
O nosso, o espaço público, que pouco uso tem, (excepção feita àquele relativo ao uso do carro, mas esse será uma outra coisa, de outro cariz, pelo menos, ainda assim temos a civilidade centro-europeia de conduzir, dentro da cidade, entre as marcações rodoviárias –sim, isto é uma critica à vossa condução, ò bárbaros romanos), a que um arquitecto Siciliano quis chamar os “Jardins Secos”,(a meu ver, expressão mais que acertada, basta pensar nas ultimas intervenções na Praça da Batalha, Aliados, Poveiros), espécie de museus-das-coisas–que-não-são-o-que-as-coisas-podiam-ser-mas-continuamos-orgulhosos-de-ter-estes-espaços-em-potência, um museu onde se mostra que houve (há) um tempo e um lugar de uso colectivo, mas que a ninguém parece importar, pelo menos pouco patente entre o comportamente nativo mas bastante menos sobre aquele importado.
Certo, entre praças-negativo-da-malha, esplanadas-de-recanto-de-passeio-protegidas-entre-plantas-envasadas, bancos-de-jardim-verde-de-separador-central-numa-via-larga, variadissimas sao as apropriações engendradas que muitas vezes nascem espontaneas como cogomelos.... lá fora, ou se cá dentro, sempre rodeadas de um recalcado valor turistico ou sentimental por um passado boémio do tempo dos grandes poetas.
Em Portugal, onde pouco ou nada disto acontece (assim acontecia, hoje ficou-nos um certo olhar), parece ser obrigatória uma espécie de via instituicional, há que requerer a papelada e preencher o impresso correcto, pedir autorização a um dito El-Rey-de-uma-bela-merda e esperar que um Arquitecto-Chuchão interprete o alinhamento sideral de Venus com nao sei que coisa, que a Sociedade-Construtora-Chapa-Quatro-vulgo-Administração-Encapuçada aguarde o momento em que Estado-que-supostamente-somos-todos-nós apanhe o sabão e zás-tráz, a obra nasce, Deus não quis coisa nenhuma, e o Homem afinal tinha sonhado, mas era com a Katherine Hepburn....
...se no País-das-bananas querem ver frutos, talvez seja melhor começar por plantar bananeiras nas praças.

Não que este processo seja diferente noutras paragens, pelo menos no Sul mediterranico, mas como sempre, há uma linha invisivel que divide, e no que toca a aparencias, Espanha e Itália tem muito mais a oferecer ao flaneur à deriva.
O lado perverso da coisa é que como tudo o que se expõe a um uso continuado acaba por ganhar um desgaste profundo, então a estratégia (pelo menos a italiana, quer-me parecer; nuestros hermanos situam-se num patamar intercalar) parece ser não dispender demasiados esforços no detalhe com o qual as coisas são construidas, ao ponto de me questionar se realmente chegam a ser desenhadas em projecto (aquele real, como nos ensinaram a nós, escrutinado pela escala do pormenor, do detalhe minimal, onde só falta dizer às formigas por onde caminhar....), ou se são um mero exercicio de conhecimentos por quem assenta as mãos directamente na obra material. Só assim, e voltando ao tema, se entende como possa imperar, sempre e de cada vez, a lei do desenrascanço, mas um desenrascanço que olha ao lado mais practico das coisas, sem se demorar no detalhe, que investe claramente contra a legislação mais genérica, e de forma chocante o senso comum, pelo menos aquele português. Quero com isto dizer que fico sempre chocado com a displicencia com que são tratados os acabamentos nas ruas, passeios, praças, jardins, esplanadas, ao ponto de tudo ser uma colecção de remendos e contra-remendos, enfim, suporte horizontal qual manta de retalhos velha e gasta, mil vezes rota e remendada, mortalha negligenciada, afastada do centro da atenção pela riqueza da cidade vertical, aquela que se ergue do chão imundo, pararela ao plano do olhar. Talvez a lição seja mesmo essa, a de que temos de deixar de olhar tanto para o chão.
E é este contraste, entre o uso do espaço e a preparação do mesmo, que me deixa deveras consternado. Comparativamente ao desalinhado e desajeitado espaço público em Itália, efervescente em vida, aquele português parece, de uma forma exageradamente singular, um frágil sapato de cristal, de alta costura, mas sem bela formosa para o calçar....

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007

Bebendo a espuma dos dias

Uma chávena de chá.
(dedicada ao Mestre Godofredo, que me recordo uma vez ter partilhado a sua iluminada reflexão sobre a inutilidade da coerência - ou sobre a utilidade da incoerência, já não me recordo bem...)

“Nan-in, um Mestre Japonês da era Meiji (1868-1912), recebeu a visita de um professor universitário que vinha para interrogá-lo sobre o Zen.
Nan-in serviu o chá.
Encheu a chávena do seu hospite, e continuou a versar o chá.
O professor, vendo o chá extravasar, não consegui conter-se:«- Está cheia. Não cabe mais!»
« - Como esta chávena», disse Nan-in, «tu estás cheio das tuas opiniões e conjecturas. Como posso esplicar-te o Zen, se primeiro não esvazias a tua chávena?»”.(1)



Uma chávena de café "shakerato".
(dedicada ao amigo Mosca, também aluno Zen e meu habitual companheiro do café)

Ingredientes:
Caffé della moca*, dose para duas/três pessoas
2/3 Pedras de gelo por pessoa
Açúcar q.b.
Raspa de limão

Preparação:
1. Versar o café acabado de preparar no shaker, adicionar e diluir bem o açúcar.
2. Juntar as pedras de gelo e a raspa de limão, aplicar o shaker (este momento pode ser acompanhado por um samba). Agitar até que todo o conteúdo se transforme numa espuma densa cor-de-café.
3. Servir. (Aos puristas recomenda-se simples; aos amantes ocasionais do café, cortado com rum)


Uma mordidela na lingua.


"Numa época e num país no qual todos se pelam por proclamar opiniôes ou juízos, o senhor Palomar ganhou o hábito de morder a língua três vezes antes de fazer qualquer afirmação. Se à terceira dentada na língua ainda está convencido daquilo que estava para dizer, di-lo; senão fica calado.
Com efeito, passa semanas e meses inteiros em silêncio." (2)


Sem dúvida alguma, um óptimo remédio para muita gente...




*Cafeteira, em Português bem entendido
(1) Tradução livre: Senzaky, Nyogen; Reps, Paul; 101 Zen Stories, Charles E. Tuttle Company; Tokio; 1957
(2) Calvino, Italo; Palomar; Teorema; Lisboa; 1987

Sábado, 18 de Agosto de 2007

Desabafos, interlúdios e considerações breves sobre o instantâneo gastronomómico

1. Recordo-me, uns tempos atrás, de ouvir o Mosca alvitrar sobre como os nomes dos snacks, que nós temos como altas especialidades Portuguesas, se escondem sempre atrás de uma nomenclatura que, se de historicamente enraizado têm algo, a nós já não nos chegou, seja porque ninguém se interessou entretanto, seja porque ninguém se interessa, nestes instantes. Basta para o efeito lembrar-se de famigeradas iguarias como "francesinha", tosta "mista", "americana" ... ?
Depois vêm os italianos, que criticam fortemente a fast-food americana (hoje escrevem-se livros para serem vendidos como hamburgers, ouvi dizer ontem), que de resto prolifera, ainda que seja somente um fenómeno dentro das grandes cidades, voltadas ao turismo das massas, aliás, as duas coisas são ainda inseparaveis;
como se eles próprios não fossem uma espécie de preguiças penduradas nas árvores à espera de qualquer coisa para trincar desde que esta seja rápida e esteja polvilhada de queijo ou qualquer outra iguaria por sua vez anteriormente confeccionada e já preparada à degustação instantânea, e não menos importante, rotulada sob uma espécie de convenção ancestral que fundiu para sempre as regras sãs das combinações entre as coisas, e o nome pelo qual são conhecidas.
Senão repare-se bem na comida instantanea que por todo o lado sempre presente:
- a pizza, que não é senão uma confecção rápida com elementos já preparados, vegetais e verduras incluidas, só juntá-las e cobrir com quejo e está tudo pronto, feita com elevado numero dos referidos campeões da velocidade do corte e da raspadela, mais o inevitavel olio di oliva em abundância, que podes encontar "al taglio", ao corte, pronta a embalar e levar...
(da sopa, tao afamada em terras lusas sempre pronta a ser servida até na tasquita mais refundida, ainda não senti o perfume, com a desculpa que é uma coisa pouca estiva, mas cá por mim uma sopa de melão ou um creme bem frio cai sempre bem).
-as focaccia de azeite (ou outro pão qualquer) que podes mandar cortar e encher com as especialidades "froumagères"* contrafiadas com a mais refinada delicatessen italiana ( Prosciutto, Gambuccio, Culatello, Speck, Finochiona, Bresaola, Pancetta, Lonza,...) à escolha mesmo dentro do supermercado, aliás algo de uma conveniencia extraordinária,
- as piedine, especie de pão meio cozido, meio levedo, que depois de recheado com as anteriores especialidades basta passar na brasa por breves minutos e voilá!
- ...

2. Mesmo na preparação culinária mais cuidada o mote continua a ser o da velocidade, a titulo de exemplo:
- Carpaccio, fatia quase tranparente de carne crua, divinal, que depois do banho em azeite está pronta para servir.
- Bresaola, verdadeira especialidade fumada de carne de vitela, creme de la creme da arte dos enchidos,
- Carnes em geral, após uma passadela rápida na grelha, um salpicadela de rucola ou outra verdura fresca por cima e voilá, o prato principal está composto!

3. Pois bem, fala-se demasiado de comida e dos prazeres que ao palato dizem respeito. A contaminção não tardou em “engulir-me”, aliás essa era uma batalha perdida à partida, não fosse estar num sítio onde os prazeres imediatos ao corpo são a raiz cultural que une e divide o território...
Há que render-se aos desejos imediatos da carne, não há fuga possivel!


* Espressão arcaica do francês, que por aqui foram sempre vistos como uma estirpe culturalmente elevada e invejada:
Queijos: São incontaveis e todos eles um delirio do palato. Temos o apimentado Parmigiano, ou irmao menos forte GranaPadano (Quem conheça o Queijo da Ilha (S.Jorge) de cura prolongada (no minimo uns 6 mesitos, mas se forem 9 tanto melhor) sabe que não minto se disser que podem concorrer em pé de igualdade).
Depois temos o Peccorino, do Lazio, espécie de quejo de cabra meio-curado, nada que um queijo serrano da Estrela nao possa facilmente igualar ou superar, mas neste capitulo sou suspeito. O Stracchino, pastoso para barrar, branco, manteigoso, mas sem o sabor temperado; Robiola, tipo philadelfia, acido, desconcertante; Pecorino, sempre Lazio, queijo de cabra meio-curado, tipo serrano; Scamorza, em forma de botelha, "affumicato" é uma verdadeira "esquisitice"; Certosa, amanteigado fresco, ...

 
Alguem me diz como transformo um teclado Italiano num Portugues? Fazem-me falta as cedilhas e o til, ....